Saturday, January 14, 2006

muzamboys no globo



que bom começar um sabadão de trabalho assim, com digitaldubs na capa. fiquei super orgulhosa, é claro... ainda que o texto é do calbuque. o cara escreve tão bem, com tanta descontração e humor que eu morro de inveja.

Os novos tons do reggae

Carlos Albuquerque

Oreggae desce redondo, preto e com um buraco no meio na festa Digital Dubs, que tem lotado as noites de quarta-feira na Casa da Matriz, em Botafogo. O som de compactos de sete polegadas, uma tradição jamaicana, faz com que corpos se mexam para cima e para baixo na pista de dança. No comando dos toca-discos e da mesa de efeitos especiais, estão os DJs MPC e Nélson Meirelles, acompanhados pelo MC Cristiano Dubmaster e quem mais se aventurar no microfone.

— O legal da festa é que ela tem um clima de jam session — diz Meirelles, enquanto busca ar fresco do lado de fora da casa, numa pausa entre a discotecagem. — O microfone fica aberto e as pessoas vão chegando. Dessa forma, fomos criando um público fiel. Acabamos até descobrindo alguns talentos.

O sucesso da festa é sinal de céu de brigadeiro no eterno verão do reggae. Depois de um longo inverno, em que foi colocado à margem do mercado, que não viu mais se repetir estouro igual ao de bandas como Cidade Negra e Skank no começo dos anos 90, o caloroso ritmo volta a contaminar corações, mentes e cinturas.

A mesma opção pela independência

Dois exemplos desse florescer são o Ponto de Equilíbrio, grupo que representa a ala mais tradicional do estilo, e o próprio Digital Dubs, misto de equipe de som e banda, que vem abrindo novos caminhos para o som. Cada um tem um disco pronto nas mãos e, à sua maneira, faz acreditar que não há mais motivo para menina alguma chorar. Na estação das gigogas, o reggae volta a invadir as praias.

— Nós começamos como um grupo tocando reggae em estúdio, viramos uma festa, ganhamos formato de banda para fazer shows e agora vamos lançar um disco — conta Meirelles, ex-produtor do Cidade Negra, excelente baixista e um dos fundadores do Rappa. — Nada disso foi programado. Tudo foi acontecendo naturalmente, com a música e os acontecimentos nos levando.

Forças naturais também movem o Ponto de Equilíbrio. Nascido em Vila Isabel há seis anos, o grupo já vendeu dez mil cópias do seu disco de estréia, o independente “Reggae a sua vida com amor” (que vai ser distribuído pela Deckdisc a partir deste mês), repleto de letras com louvor espiritual e exaltação da filosofia rastafári, adotada pela maioria dos seus oito integrantes, que não comem carne, não tomam refrigerantes e não cortam as tranças. Esse jeitão hippie, que reflete os primeiros encontros na região do Sana, tem ajudado o grupo a conquistar um número cada vez maior de fãs no circuito do chamado reggae de raiz.

— Claro que há uma coisa simbólica na adoção da filosofia rasta — explica o baterista Lucas Kastrup, que também é antropólogo, formado pela Uerj e estudioso do assunto. — Cada um na banda tem sua versão do assunto. No geral, ele representa uma aproximação da natureza e um desapego aos valores materiais. É uma identidade que nos levou a fazer reggae.

Essa espiritualidade, porém, não faz com que o grupo esqueça suas raízes urbanas. Não é à toa que uma das músicas do disco, “Rastafara”, acabe com o samba-enredo “Kizomba, a festa da raça”, que deu à escola de Vila Isabel o título de campeã no desfile de 1988.

— Vila Isabel ainda tem essa coisa de todo o mundo se conhecer. E dos oito integrantes da banda, seis são do bairro — conta Kastrup. — É natural que tenhamos influência do samba na hora de compor e fazer os ritmos. E também ao falar do cotidiano, que está presente em nossas letras, como por exemplo em “Aonde vai chegar”.

No outro extremo desse balanço, o Digital Dubs vai fazendo a sua parte nessa retomada do reggae. Com a experiência de shows ao lado do inglês Mad Professor e no TIM Festival de 2004, o coletivo usa o mais tradicional dos formatos do reggae — dois toca-discos e um microfone — para revolucionar suas estruturas. Depois de botar na rua um compacto com duas faixas, prensado na Jamaica, o Digital Dubs prepara o lançamento do seu primeiro disco, “Brasil riddim volume 1”, que deve estar à venda a partir de fevereiro.

Masterizado pelo americano Michael Fossenkemper (que já assinou discos de Miles Davis, Bill Laswel e Nação Zumbi), o CD vai trazer para o país, pela primeira vez, um formato que é tipicamente reggae: uma mesma base instrumental (o “riddim”), que é utilizada por diversos artistas.

— Foi através dos riddims que o reggae se popularizou e gerou o rap — explica Meirelles. — Esse formato é ao mesmo tempo tradicional e futurista. O problema é que as pessoas acham que raiz do reggae é só ouvir Bob Marley.

Catra e B Negão no disco do Digital

Quem interpreta os ritmos criados pelo Digital são feras como B Negão, Ras Bernardo (o primeiro vocalista do Cidade Negra) e Mr. Catra, ao lado de revelações como Lápide, M7 e Biguli.

— Vamos deixar outros riddims no nosso site para que as pessoas possam baixá-los e fazer suas próprias versões. Quem sabe elas entram num volume dois?

“Brasil riddim volume 1” vai ser lançado de forma independente, com suas primeiras mil cópias bancadas pelo próprio Digital Dubs, através do seu selo, Kizumba.

— A esta altura, depois de tudo o que vivi na indústria musical, lançar esse disco por uma grande gravadora seria inviável — conta Meirelles. — Do jeito que vai ser, podemos dar um passo de cada vez. O mundo das grandes gravadoras virou um universo à parte, longe da nossa realidade. É como se fosse um caminhão gigantesco tentando atravessar uma rua estreita, cheia de carros estacionados, sem causar estragos. Falta jogo de cintura, falta mobilidade.

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